Raabe era cananeia, pagã e prostituta – a pessoa menos indicada para ser instrumento de Deus. Mas a graça soberana alcançou-a: a fé que nasceu do temor de Deus produziu ação de risco e a entrelaçou na genealogia do próprio Messias.
Quando olhamos para a história da redenção, frequentemente somos surpreendidos pela maneira como o Senhor opera, escolhendo as coisas fracas e desprezíveis deste mundo para confundir as fortes (1 Coríntios 1.27-28). O relato sobre Raabe é uma delas. Quando pensamos em quem Deus usa, quase sempre imaginamos pessoas de currículo limpo, reputação intacta e passado irrepreensível.
Mas, no capítulo 2 de Josué, o Senhor nos apresenta uma mulher que carregava três marcas que a desqualificavam aos olhos de qualquer religioso: era cananeia, ou seja, gentia; era pagã, criada em meio à idolatria; e era prostituta, uma mulher de reputação pública manchada. E, ainda assim, é exatamente nela que a história da redenção encontra o seu primeiro fruto na terra prometida.
Não encontramos neste relato uma estratégia militar, mas o coração pulsante do Evangelho de Cristo: a salvação de uma mulher improvável. Que esta meditação abra os seus olhos para a graça soberana de Deus – aquela que não pergunta se você merece, mas que o encontra onde você está e o transforma de dentro para fora.
A Missão Começa em Segredo (Josué 2.1)
O capítulo se abre com uma ordem discreta: “Então Josué, filho de Num, enviou secretamente, de Sitim, dois espias, dizendo: Ide, examinai a terra e Jericó” (Js 2.1).
Repare num detalhe: esta missão já havia ocorrido na história de Israel. Quarenta anos antes, Moisés enviara doze espias, e o resultado foi desastroso – dez deles voltaram com medo, e a incredulidade condenou uma geração inteira a morrer no deserto (Números 13-14). Agora, porém, algo mudou. A geração da incredulidade já não existe mais. Josué, o sucessor fiel, envia apenas dois espias, e eles são recebidos de um modo que nenhum deles poderia prever.
Aqui aprendemos uma verdade preciosa sobre a providência divina. Deus não é um Deus que faz mágica, mas que opera segundo sua soberana vontade. Ele poderia ter entregue Jericó sem nenhum espião, sem nenhuma estratégia. Mas escolheu agir por meio de dois homens comuns, numa missão secreta, numa cidade fortificada. Calvino observou, comentando este texto, que a providência de Deus não anula os meios humanos, mas os utiliza – ainda que esses meios sejam imperfeitos e frágeis. Deus não precisa dos nossos recursos, mas se agrada de usá-los para a sua glória.
Talvez você esteja hoje numa missão que parece pequena demais, secreta demais, sem nenhuma grandeza. Mas, lembre-se: o Deus que derruba muralhas também trabalha nos bastidores.
A Casa da Anfitriã Improvável (Josué 2.2-7)
“E de Sitim Josué, filho de Num, enviou secretamente dois homens como espias, dizendo: Ide, observai a terra e a Jericó. Foram, pois, e entraram na casa de uma mulher prostituta, cujo nome era Raabe, e pousaram ali.” (Josué 2.1)
Os espias chegam a Jericó e entram na casa de uma prostituta chamada Raabe. É impossível não se surpreender com a soberania de Deus aqui. De todas as casas da cidade, de todas as pessoas, a providência os conduziu exatamente à mulher em cujo coração Deus já estava trabalhando. João Calvino, ao comentar este trecho, nos ensina uma verdade libertadora: “foram conduzidos pela mão oculta de Deus à casa de Raabe, não porque ela fosse digna, mas porque Deus havia determinado resgatá-la”.
A notícia da presença dos espias chega ao rei de Jericó, e as autoridades vão até a casa de Raabe. E então vem o momento que levanta tantas perguntas: Raabe mente. Ela diz que os homens já haviam partido, quando na verdade os escondera no terraço, debaixo das canas do linho (Js 2:4-6).
Como devemos lidar com essa mentira? Com honestidade exegética, precisamos dizer: a Bíblia não louva a mentira de Raabe; ela louva a fé de Raabe. O escritor de Hebreus, ao elogiá-la, diz que “pela fé Raabe, a meretriz, não pereceu com os desobedientes, havendo recebido os espias em paz” (Hebreus 11.31). O destaque é a fé que a moveu, não o engano que ela praticou. Deus usa pessoas imperfeitas, com virtudes e falhas, sem jamais abençoar o pecado. Raabe é salva apesar de sua mentira, não por causa dela.
Mas há um detalhe ainda mais profundo: o texto nos diz que “o coração dos homens de Jericó desmaiou” (Js 2.11). O terror que tomou conta da cidade já era o prenúncio do juízo divino. Enquanto Jericó tremia, apenas uma mulher entendeu o que estava acontecendo. O juízo de Deus se aproximava – e ela sabia para onde correr.
A Confissão de Fé de um Coração Transformado (Josué 2.8-11)
Antes que os espias dormissem, Raabe sobe ao telhado e profere uma das mais profundas e belas confissões de fé de todo o Antigo Testamento. Preste atenção nas palavras de uma mulher que não tinha acesso às Escrituras, mas que foi ensinada pelo próprio Espírito Santo:
“Sei que o SENHOR vos deu esta terra… porque temos ouvido como o SENHOR secou as águas do mar Vermelho diante de vós, quando saístes do Egito; e o que fizestes aos dois reis dos amorreus, a Seom e a Ogue… porque o SENHOR, vosso Deus, é Deus em cima nos céus e embaixo na terra.” (Js 2.9–11)
Como Raabe obteve tamanha convicção? O apóstolo Paulo nos dá a resposta exata séculos depois: “A fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo” (Romanos 10:17). Ela mesma diz: “Temos ouvido…”. A notícia da abertura do Mar Vermelho – um evento ocorrido quarenta anos antes – chegou a Jericó. Enquanto o coração dos reis cananeus derreteu de pavor e rebelião, o coração de Raabe derreteu em quebrantamento e fé.
E então ela pronuncia uma confissão que beira o credal: “o SENHOR, vosso Deus, é Deus em cima nos céus e embaixo na terra.” Há algo de puritano nessa declaração. Lloyd-Jones costumava distinguir entre fé genuína e mera crença intelectual. A crença intelectual reconhece fatos; a fé genuína se rende a eles. Raabe não apenas sabia que Deus era poderoso – ela entregou a sua vida a esse Deus, arriscando tudo. É exatamente essa fé que Tiago recorda: “De igual modo, não foi também Raabe, a meretriz, justificada por obras, quando acolheu os enviados e os fez partir por outro caminho?” (Tg 2.25).
A fé verdadeira nunca fica apenas no pensamento. Ela desce das ideias para as mãos. Raabe creu e, por isso, agiu. O pastor contemporâneo John Piper frequentemente nos lembra que a verdadeira fé não é apenas acreditar que Deus existe, mas é abraçar a sua supremacia absoluta sobre todas as coisas. Foi exatamente o que Raabe fez. Ela abandonou os ídolos falsos de Canaã e reconheceu a majestade do único Soberano: “Deus em cima nos céus e embaixo na terra”. Isso é teologia reformada pura ecoando nos lábios de uma ex-prostituta!
A Aliança de Misericórdia e o Fio de Escarlata (Josué 2.12-21)
Diante do Deus que reconheceu, Raabe faz um pedido ousado: “jurai-me pelo SENHOR… que tratareis a casa de meu pai com misericórdia” (Js 2.12-13). Ela quer misericórdia A palavra hebraica que Raabe usa ao pedir misericórdia é Chesed – um termo riquíssimo que significa amor pactual, lealdade e graça imerecida. Ela está implorando para ser enxertada na aliança de Deus. – não por merecimento, mas por um pacto. E os espias lhe dão um sinal visível:
“Eis que, quando nós entrarmos na terra, atarás este cordão de fio escarlate à janela por onde nos fizeste descer.” (Js 2.18)
Aqui a tipologia brilha. O grande pregador puritano Charles Spurgeon dedicou um sermão inesquecível a este texto, e nele declarou: “Assim como o sangue do cordeiro pascal nas ombreiras das portas salvou os israelitas do anjo destruidor no Egito, o fio escarlate na janela seria o sinal de proteção para a casa de Raabe.” (Êxodo 12.13). O vermelho daquele cordão aponta diretamente para o sangue de Cristo, que nos livra do juízo vindouro.
A palavra hebraica usada para “cordão” é Tiqvah, que em todo o restante do Antigo Testamento é traduzida como esperança. O cordão vermelho era a esperança de Raabe! Meus irmãos, o sangue de Cristo Jesus, vertido na cruz do Calvário, é a nossa única tiqvah. É o sacrifício de Cristo a nossa única e firme esperança para escaparmos da condenação eterna e justa de Deus. Sem o derramamento desse sangue, estaríamos todos arruinados (Hebreus 9:22).
A Fuga e a Confirmação (Josué 2.22-24)
Os espias descem pela janela, escondem-se três dias na região montanhosa e, finalmente, retornam a Josué com um relato carregado de certeza:
“Certamente o SENHOR nos deu toda esta terra nas nossas mãos; pois todos os moradores da terra estão desmaiados diante de nós.” (Js 2.24)
Repare na ironia gloriosa: quarenta anos antes, dez espias disseram “não podemos” (Nm 13.31). Agora, dois espias – amparados pela fé de uma prostituta convertida – dizem “certamente o Senhor nos deu a terra”. A fé de Raabe antecipa e confirma a vitória de Israel. Deus usou a mulher mais improvável para reacender a confiança do seu povo.
E a história não termina em Jericó. Raabe foi incorporada a Israel, casou-se com Salmom e tornou-se mãe de Boaz, bisavó do rei Davi e, por fim, entrou na genealogia de Jesus Cristo (Mateus 1-5). No sangue do Salvador corre o sangue de uma prostituta cananeia redimida. Se isso não é graça soberana, nada mais é.
O que Raabe nos ensina hoje
Permita-me ser direto com você, porque é assim que a Palavra de Deus é: viva e eficaz (Hebreus 4.12).
Primeiro, a graça alcança os improváveis. Há alguém na sua vida – um parente, um vizinho, um colega – que você já considerou “caso perdido”? A história de Raabe nos confronta com uma pergunta incômoda: estamos dispostos a crer que a graça de Deus alcança quem julgamos “de fora do arraial”? Se Deus salvou uma prostituta cananeia e a colocou na linhagem de Cristo, não há ninguém que esteja fora do alcance da sua misericórdia.
Segundo, fé verdadeira produz ação de risco. Raabe não disse apenas “eu creio”. Ela escondeu os espias, arriscou a própria vida e pendurou o cordão escarlate. Como lembrou Hernandes Dias Lopes, a fé que não se traduz em obediência não é fé, é fantasia. Em que área da sua vida Deus está pedindo uma ação de fé que você tem adiado por medo?
Terceiro, a sua salvação está garantida pelo sangue de Cristo. O fio escarlate era o sinal externo de uma aliança interna. Hoje, o nosso sinal não é um cordão numa janela, mas o sangue de Jesus que nos purifica de todo pecado (1 João 1.7). A segurança de Raabe não estava na firmeza do nó que ela amarrou, mas na promessa dos espias. A sua segurança também não está na força da sua mão, mas na fidelidade daquele que prometeu.
Que a graça que resgatou Raabe alcance o seu coração hoje. E que a sua fé – como a dela – se mova do pensamento para a ação, para a glória de Deus.
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Soli Deo Gloria.


